sexta-feira, 22 de abril de 2011

Um dia na vida de....

João Merino
Cantor lírico de Rio de Moinhos
O interesse pela música despertou cedo
em João Merino que seguiu a sua
vocação mesmo quando muitos lhe auguravam
um futuro mais negro. Vingou.
Hoje é um cantor lírico de prestígio no
país e presença assídua nos palcos do
Teatro de São Carlos em Lisboa, onde
actua em diversas óperas.
O barítono de Rio de Moinhos diz que em
Portugal se consegue viver do canto,
mas não esconde que as remunerações
decaíram nos últimos anos.

Um dia na vida de...

João António Merino da Rocha Leal de Moura, artisticamente conhecido
como João Merino, nasceu em Rio de Moinhos há 35 anos. Desde
cedo cantar foi para este penafidelense uma coisa natural. “Na família
do lado da minha mãe era muito frequente todos juntarem-se em casa
do meu avô em animado convívio.
O canto, a brincadeira, as tertúlias eram constantes”, explica o barítono,
filho de um bancário e de uma professora primária. Logo no 5.º
ano, quando frequentava a escola de Paredes, participou num concurso
e foi premiado, mas, confessa, não gostou da experiência.
Da infância e adolescência na região recorda a “anormalidade” de
ter andado a saltitar de escola em escola, que o fez aprender a adaptar-
se rapidamente. “Factor que tem sido extremamente importante
na minha carreira profissional”, reconhece o cantor.
Com a música sempre presente e depois de ter realizado um percurso
escolar na área de Engenharia Electrotécnica, trocou o curso superior
na Faculdade de Engenharia do Porto pela recém-formada Escola Profissional
de Musica do Porto. Entrou no curso de Prática Coral, decisão
“polémica e difícil”, recorda. “’Vais morrer à fome!’, “Os músicos são
uns boémios desgraçados!’, ‘Tudo bem, mas e um curso a sério, quando
tiras?’ foram só algumas frases que ouvi repetidamente”, diz o barítono.

Distinguido como um dos melhor es alunos

O apoio dos pais levou-o a prosseguir com o sonho. E em 1995 ingressou
na Escola Superior de Musica e Artes do Espectáculo do Porto. Um
percurso nada fácil, já que tinha que trabalhar para pagar os estudos.
“Entre dar aulas, alguns concertos no Circulo Portuense de Ópera e estudar
o tempo era pouco”, confessa. Por isso, terminar o curso foi “algo
penoso”. Chegou mesmo a fazer um interregno de dois anos. Apesar
disso, graduou-se em 2006, tendo-lhe sido atribuído o Prémio Eng. António
de Almeida, que distingue os melhores alunos das universidades
portuenses ligadas às artes.
Nessa altura, já tinha mais de 12 anos de experiência. “Os convites
para concertos e óperas já existiam desde 1997 e 2006 foi muito rico em
termos de actuações, fiz cerca de 60 só nesse ano”.
Mas depois da conclusão do curso sentiu que sua formação artística
tinha chegado “a um beco sem saída”.
Para continuar a evoluir saiu de Portugal para aprender com alguém
que tinha uma carreira de 30 anos como cantor profissional: Francisco
Lázaro. “Um cantor lírico tem de estar, na minha opinião, em constante
reciclagem e aperfeiçoamento. O corpo é o nosso instrumento e está
em constante alteração”, frisa.
Estreou-se nos palcos, como profissional, em 1997. Na ópera “La Traviata”, de Verdi, em Santa Maria da Feira, interpretando o “Doutor Grenvil”. “Recordo-me como se
fosse hoje, estava extremamente nervoso. Mas correu tudo bem”, conta.

Hoje tem já um vasto currículo na participação em óperas. As favoritas,
revela João Merino, são as de Mozart, “quer pela qualidade da
escrita musical quer pela relevância, carácter e carisma dos papéis
que desempenhei”. Actualmente está a preparar a ópera “Porgy and
Bess”, de Gerswin, para apresentar no concerto de encerramento
do Festival Dias da Musica, no CCB,e a ópera “Il capello de paglia di Firenze”,
de Nino Rota, com estreia em Maio, no Teatro Nacional de São
Carlos, onde participa nas temporadas com regularidade.

Ter o canto como profissão é desgastante física, psicológica e
emocionalmente, revela o barítono.
“Nas seis semanas anteriores à estreia iniciam-se os ensaios de cena.
O que significa seis horas de ensaio diário, seis dias por semana”,
concretiza. Seguem-se espectáculos dia sim, dia não. Para manter a
voz, o seu instrumento de trabalho, sempre nas melhores condições,
há que descansar, comer bem e estar hidratado: “É a saúde vocal que
irá determinar a durabilidade e fiabilidade do cantor. Um cantor que
fica rouco com facilidade ou que está frequentemente doente da
garganta dificilmente conseguirá fazer carreira. Um cantor lírico em
carreira é como um atleta de alta competição, tem de treinar todos
os músculos do corpo e estar afinadinho como um Formula 1”, explica.

Regresso a Rio de Moinhos está nos planos

As actuações têm sido sobretudo em Portugal, mas também já
passou por palcos espanhóis e italianos.
Em 2006, participou num concerto em Rio de Moinhos com
a Orquestra do Norte. Actuar “em casa”, confessa, “foi muito difícil”.
“Cantar para os ‘nossos’ expõe-nos a uma responsabilidade enorme,
mas o carinho e o reconhecimento que recebi valeu por tudo”, recorda
João Merino.

A viver actualmente em Setúbal, o cantor continua a vir uma
vez por mês à terra natal onde pretende regressar em definitivo
quando terminar a carreira. Mas esse dia ainda está longe, garante.

Além das duas óperas que tem em mãos, faz parte de parte de
um projecto que pretende levar um espectáculo, criado de raiz e
com árias de ópera conhecidas, aos teatros dos municípios de todo
o país, desmistificando a ópera como algo eclético e de elites.
Por concretizar está ainda um sonho. Actuar no Teatro Alla Scala
de Milão.

Discurso directo

Em Portugal consegue-se viver do canto?

“Já foi mais fácil! Não me posso queixar da quantidade de convites
que tenho recebido todos os anos e que me têm permitido
estar continuamente ocupado.
Mas o facto é que o nível remuneratório tem vindo a decair
drasticamente de ano para ano. Dou um exemplo: o primeiro
papel que fiz, embora um papel secundário e há 14 anos atrás,
foi um dos mais bem pagos até hoje. Acho que as Instituições e
mesmo os particulares não têm uma real noção do trabalho que
está por trás de uma ópera ou de um recital. Muitas vezes ouvi
a pergunta ‘mas tem de se pagar?’ ou as palavras ‘pensei que
o fazia por gosto’”.

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